D o u g







Querido Chester 

comprador, comprar coisas que brilham no escuro
comprar poder, comprar sucesso, comprar roupas sem ziper
Comprazer...
Comprar sem compreender, só preencher cheques
só querer, sem truque
na frente do caixa

Comprar peixe no mercado com a tia de magrela
e dar-lhe presentes made in China em caixas de isopor

Comprar casas, asas, coisas bonitas e gostosas
mas por ser muito gordo
de tanto comer e tomar refrigerantes
não poder voar

Comprar a privacidade e a individualidade alheias
E revender a própria imagem a preço de ouro
Com risinhos debilóides
gargalhadas sarcásticas, nojentas, ocultas, maquiavélicas

Comprar a mãe, a vovozinha, e o pai 
Com o polegar em riste, escolher o tênis, o terno

Pequeno Espírito de Porco

Pequeno burguês do Porto, coadjuvante

Comprar óleo Johnson, comprar alho, baralho
carro novo, Jeep, iPhone e perfume
Comprar tudo o que quiser, tudo o que puder 
Tudo o que está morto e não vibra
para se sentir vivo e Samsung
imaginando ser livre
Comprar carne e bebidas e morrer pó

Semear dor entre os semelhantes
Deixando escapar peidos inaudíveis e risinhos debilóides novamente
Idolatrando o próprio corpo
Pensando ser ele o Deus que o criou 
a partir do umbigo

Comprar livros caros, microondas, motocicletas Harley Davidson
e motoserras, cortar árvores, derrubar postes
comprar o mar, comprar ondas de rádio, amor cego
Halls e cigarros na padaria, e nem fazer questão do troco
Distribuindo novamente ódio e rancor aos semelhantes

Comprar tudo, à vista, no escuro, sem medo, sem mistérios
O porteiro do prédio, o pedreiro e a empregada semianalfabeta
O magistério, a câmara, a grama e o parque

Comprar, doar sangue aos domingos
queimando a pança com os meninos na churrasqueira
Tudo o que for interessante, a torre, o padre, o bispo, o tabuleiro...

Mas que besteira...

Para alguns, devo estar valendo mais morto do que vivo; (
Para muitos, talvez nem isso; )
Para outros, o inimigo, ou, nem tanto, nem existo
Para mim, só por Cristo.

...Bye Bye, Porcos!